quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Participação especial: "Bola e livros" de Álvaro Loro
Li em algum lugar que do ponto de vista da Biologia, da vida, da preservação da espécie, eu já poderia ter morrido. Já passei da idade de ter filhos – tenho um – a espécie já está preservada, tchau. Li também que uma das justificativas para continuar por aqui seria tornar-me alguém melhor, contribuir para tornar o mundo melhor.
Melhorar implica conhecer-me e conhecer o que me rodeia. Isso me leva a prestar atenção, perceber, aproveitar as fontes de informação, filtrar, questionar, adaptar, utilizar, armazenar, descartar...
Tudo isso, de maneira consciente ou não, guiado pelo hábito e por um conjunto de valores dos quais parte é fixo – meus princípios, a convicção do que é certo ou errado – e parte reciclável, verdades que não subsistem conforme vou envelhecendo e ficando mais crítico – minha mulher vive me dizendo prá eu tomar cuidado senão viro um chato, meu filho me garante que eu JÁ SOU um chato!
De todos os canais que estão à minha disposição tenho uma preferência pelos livros. Gosto deles: do seu cheiro, do seu formato, do seu peso, da força insuspeitada escondida na sua aparência despretensiosa, da sua lealdade incondicional: ele estará sempre lá, à disposição. Já deixei de comer prá comprar livro, fui aprender outros idiomas de curioso, tenho um amigo que disse que sou a única pessoa que ele conhece que abandona festa prá ler.
Meu pai morreu muito cedo, aos 38. Agricultor sem posses, deu-me uma estrela e um livro. A estrela continua lá, indisputada, a lembrar-me dele todo começo de noite. E o livro, ah... esse arranjou um sem número de companheiros espalhados por todos os cantos da casa.
Passei parte considerável da infância e da adolescência lendo números atrasados de jornais, revistas Seleções, gibis, livros de bolso... Para compensar o ar apatetado e o vocabulário diferente, e para ser aceito no mundo dos normais, tornei-me um jogador de futebol aceitável. Deu certo: ninguém me parava na rua prá perguntar que livro estava lendo, mas discutir a última partida sempre foi um tópico de interesse geral e eu sempre podia falar das minhas leituras, a estranheza perdoada pela correria e dedicação demonstradas em campo.
Já tem algum tempo que convivo com um problema: os livros me continuam fiéis, mas a bola abandona-me com uma desfaçatez imperdoável. Infelizmente a indústria esportiva não desenvolveu um calçado que faça pelo desportista o que os óculos fazem pelo leitor. No último campeonato sub-60 do município, embora meu time tenha chegado à final, minha contribuição foi pífia. Já cogito parar, embora aqui em casa ninguém acredite nisso, tantas vezes já tomei essa decisão e voltei atrás.
Prá minha felicidade existem no mercado publicações belíssimas que tratam de futebol. Autores como Nelson Rodrigues, Eduardo Galeano, Steve Bloomfield, Simon Kuper e Stefan Szymanski, Nick Hornby, Jorge Valdano, Johan Cruyff, Juan Villoro, Barbara Smit... tratam de temas que vão desde a importância social do esporte, da beleza de torcer por um clube, da importância de se utilizar a estatística como ferramenta – se eu tivesse lido esse livro um pouco antes, meu time não teria perdido a decisão nos pênaltis! – Tratam até da modernização da administração esportiva que está em curso na Europa.
Como sempre, os livros vêm em meu socorro. Agora que as pernas me faltam, sempre posso aparecer com uma informação, um comentário, uma história engraçada que distraia meus amigos da verdade que eu sempre fui melhor leitor do que jogador de futebol!
Autoria do texto: Álvaro Jorge Loro
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