segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Não se apaga fogo com fogo

Qualquer um que tenha ligado seu televisor para assistir as notícias durante esta semana notou que a cidade do Rio de Janeiro está realizando uma espécie de “expulsão” dos traficantes de suas favelas, e esta operação não é pequena, pois o BOPE e as forças armadas estão atuando para expulsar os criminosos, e até tanques de guerra estão sendo utilizados nesta operação. O que eu critico por meio deste texto é “Qual a validade desta operação? Será que expulsar os traficantes das favelas ou até mesmo eliminá-los pode garantir paz aos moradores das favelas? Seria esse o fim da criminalidade?”

Se eu pudesse atribuir apenas um nome para esta situação seria “ilusão”, pois para mim o que está acontecendo é bem claro, eles estão apavorando os bandidos, tentado eliminá-los ou expulsá-los, e assim eles se iludem achando que estão cortando o mal pela raiz, enquanto que estão apenas podando a planta. O que acontece é que toda esta situação se originou de uma incrível fúria adormecida, todos estavam cansados do tráfico, dos assaltos, dos sequestros, das milícias, enfim, da violência e do crime, e a polícia e o exército resolveram reagir a isso atacando pesadamente o crime, mas como se sabe, a fúria nos cega ao invés de nos fazer ver mais claramente.



Armas eficientes na luta contra o crime e a violência


Infelizmente estes indivíduos com armas nas mãos e raiva nos olhos não entendem que a única maneira de eliminar o crime e a violência de uma sociedade é somente por meio da educação, da arte, do esporte e da geração de empregos. Infelizmente a raiva que a sociedade tem dos criminosos a cegou, e isso a impede de ver que o crime nasce numa sociedade que não dá oportunidades aos seus cidadãos, o crime, em suma, é uma doença social, que só pode ser tratada com a educação.

E é nessas horas que eu sinto compaixão por certos criminosos, porque apesar de haver aqueles que praticam o mal por prazer (o que ocorre no caso dos corruptos) existem aqueles que o praticam por falta de opção, vamos então imaginar o caso hipotético de um sujeito chamado Fernando, este quando criança não frequenta a escola por falta de vagas no ensino público e pelo fato de seus pais não terem dinheiro para bancar uma escola particular, e ao crescer, por falta de escolaridade e qualificação, não arranja emprego no mercado de trabalho, mas as coisas vão apertando e ele tem que arrecadar dinheiro, pois já está crescido e tem que arrumar dinheiro para sustentar sua família, então um amigo de infância apresenta pra ele uma ideia, fazer assaltos à mão armada, e no final das contas, Fernando não suporta mais ver sua família passando por necessidades e acaba entrando no mundo do crime, certo dia a sociedade se cansa dos assaltos e a polícia resolve invadir a favela com tanques de guerra e botando todos os criminosos pra correr. Um desses criminosos é o Fernando, que acaba levando um tiro e morrendo, agora vamos raciocinar um pouco, “Será que é justo que pessoas que não tiveram oportunidade na vida tenham que pagar por isso? Até quando essa sociedade injusta vai por a culpa pelos crimes nos criminosos e não nos verdadeiros culpados, os políticos corruptos que roubam o dinheiro público que deveria ser usado para investimentos em educação, arte e esporte e o colocam em suas cuecas sujas e fazem com ele o que querem? Quantos ‘Fernandos’ terão que morrer para a sociedade entender o que está acontecendo? Quando tudo isso vai acabar?”

Quando uma casa está pegando fogo, o que acontece? O corpo de bombeiros é acionado e ele vai lá apagar o fogo com água, não com fogo, essa analogia serve para mostrar que o crime não se combate matando os bandidos, a violência não se combate com mais violência, mas com pesados investimentos em educação. Porque vagas de emprego não faltam, o que falta são pessoas qualificadas, logo quando se investe em educação as pessoas se tornam mais qualificadas e mais aptas para o mercado de trabalho, e as crianças que praticam algum esporte ou alguma arte se mantêm ocupadas e não entram para o mundo do crime das drogas, e inclusive podem até se tornar, futuramente grandes artistas ou esportistas.

E para finalizar esse texto eu respondo os questionamentos que fiz no começo deste. Essa operação não tem valor algum, pois daqui a algum tempo tudo voltará a ser como era antes, e os moradores da favela só terão paz quando o crime acabar e este só irá acabar quando houver investimentos em educação, arte, esporte e geração de empregos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Os símbolos por trás de um ídolo

Uma forma interessante que pode ser usada para entender uma determinada sociedade é através dos herois que ela produz, pois o heroi é uma idealização produzida por um determinado individuo comum, que sofreu, obviamente, influências da sociedade em que vive, e ao criar o heroi acaba idealizando nele os poderes e as características que seriam as ideais para a sua sociedade, portanto a importância de se estudar os herois produzidos em diferentes épocas é a de conseguir determinar quais são as vontades e necessidades vividas por uma determinada sociedade, que acaba as expressando em seus herois, e a partir disso somos levados a crer que se nós conseguirmos identificar as necessidades de uma sociedade podemos então conhecer e solucionar seus problemas.

Logo para que nós possamos entender a sociedade de hoje, devemos olhar para trás e entender como se formaram os herois do passado, e qual heroi nós temos hoje, só assim poderemos compreender a atualidade. Portanto os herois escolhidos para fazerem parte dessa análise foram: Aquiles, Ulisses, Robin Hood, Superman e por fim, o grande inspirador deste texto, Capitão Nascimento.



Seria o Capitão Nascimento nosso Super-Homem?



Aquiles, heroi criado pelo poeta grego Homero ilustrava muito bem o pensamento daquele tempo, era um herói que apesar da força descomunal e na incrível habilidade em campo de batalha era um guerreiro que estava à mercê da vontade dos deuses. Pois antes de ir para a guerra de Tróia ele havia sido avisado que se ele fosse a profecia de que morreria jovem, porém seu nome seria eternamente gravado na história, iria se cumprir (fato este que ocorreu mais tarde), e esta ideia de que por mais forte que um homem possa ser, ele nunca poderá ser mais forte que a vontade dos deuses se encarna no fato de seu ponto fraco ser o calcanhar. Ou seja, a mensagem trazida por Aquiles era “Você pode ser forte, você pode até desafiar os reis. Mas você não pode de maneira alguma superar a vontade dos deuses”, e Aquiles simbolizava uma nação que tinha potencial para se desenvolver culturalmente, economicamente e politicamente, mas que ainda se via delimitada pelos mitos e por uma religião alienadora.

Ulisses, também criado por Homero, retrata um heroi um pouco mais desenvolvido, Pois este utilizava a inteligência do homem para superar os obstáculos, e só assim ele conseguiu superar a vontade dos deuses. Ao vencer a guerra de Tróia Ulisses grita para o mar, vangloriando-se de seus incríveis feitos e afirmando ser mais poderoso que os deuses e totalmente independente destes. Poseidon enfurece-se ao ouvir isso, e o amaldiçoa com o castigo de nunca mais poder retornar para o seu lar. Mas Ulisses não desiste e utiliza toda a sua astúcia para voltar para casa, e no caminho de volta ele inclusive é auxiliado pelo deus dos ventos, que afirma que está a ajudá-lo pelo fato dele ser o primeiro homem a usar a racionalidade para superar seus obstáculos. No fim da narrativa Ulisses consegue retornar para casa, contrariando assim as palavras do poderoso deus Poseidon simbolizando assim uma sociedade grega mais renomada, que já consegue se desprender das limitações impostas pelos mitos, e tudo isso através da racionalidade, da Filosofia e da Ciência.

Na Idade Média encontramos outro bom exemplo de herói, o jovem Robin Hood (conhecido como rei dos ladrões), que simbolizava um heroi rebelde, que roubava dos ricos para dar aos pobres. Sabe-se que Robin Hood surgiu apenas no final da Idade Média, e assim podemos identificar que a ideia de um herói plebeu e ladrão, porém justiceiro, simbolizava toda a fúria de uma sociedade feudal, que já estava ciente de que era oprimida e manipulada pelas classes “superiores”, e assim expressava no seu heroi ladrão toda sua sede por justiça.

O Superman é um heroi que num geral pode simbolizar o próprio Estados Unidos, pois se veste usando as cores da bandeira norte-americana, este surgiu no cenário de um Estados Unidos que havia acabado de se recuperar de uma crise mundial e que se encontrava a “todo vapor”, pronto para encarar uma Segunda Guerra Mundial e ainda por cima sair ganhando. Superman simboliza uma nação que se encontra em plena ascensão econômica e que se vangloria com a ideia de que é superpoderosa e que pode superar qualquer obstáculo. Podemos dizer que este tipo de heroi é perigoso para uma nação, pois uma nação que se ilude achando que está tudo bem, não tem capacidade de se autocriticar e conhecer seus próprios problemas, e ainda pode esconder em sua essência o germe de uma futura nação xenófoba.

Por fim, vamos nos voltar para a nossa própria realidade. A nação brasileira nunca antes havia criado um heroi para si com tanta popularidade, a ideia que alguns críticos tem de que o nosso primeiro heroi seria Macunaíma é furada, pois Macunaíma não representa nenhum ideal de homem, portanto não pode ser visto com heroi, Macunaíma simplesmente representa um povo consciente de sua condição multiculturalmente miscigenada. Capitão Nascimento é retratado em bonecos, e o “caveirão” até já virou carrinho, e o que é incrível, os dois simplesmente sumirão das prateleiras ao lá serem depositados. As nossas crianças brincam de ser Capitão Nascimento, e se batem no rosto exclamando “Pede pra sair!”.

Capitão Nascimento é um homem durão, sem meias-palavras, que se priva de sua vida particular para lutar contra o crime, ele não se importa em usar agressão física ou moral, tortura ou assassinatos para defender a sua sociedade, e o que me preocupa é fato dele ser aplaudido ao fazer essas barbaridades. Vemos logo que se trata de uma situação delicada, que deve ser examinada por olhares críticos. Capitão Nascimento simboliza uma nação inteira que tem ciência de sua condição de opressão, e a partir disso sente raiva dos políticos corruptos, dos traficantes e das milícias e ao mesmo tempo simboliza uma sociedade fraca e oprimida, que não consegue combater a violência e a corrupção com suas próprias mãos então acaba entregando nas mãos da polícia todas as suas esperanças (pode se dizer que a nação tem raiva das injustiças, mas preguiça ou pouca força para combatê-las, daí acaba implorando ajuda para a segurança), Capitão Nascimento ao tentar fazer justiça com as próprias mostra uma nação que não tem capacidade racional para argumentar a favor de seus direitos, ou pior, mostra uma nação que não recebeu educação para argumentar com os seus problemas e combatê-los de maneira racional e inteligente, revelando assim uma sociedade carente de educação.

Em suma percebe-se que o Brasil ao ter como heroi o Capitão Nascimento, se revela como uma nação totalmente enfurecida, oprimida, fraca e sem educação, uma nação que já não vê mais saída.

Espero que meu texto tenha aberto os olhos daqueles que o leram para esta situação. E antes de finalizar, gostaria de deixar uma pequena interrogação no ar “Por que esse nome Nascimento? Não seria mais apropriado ’Morte’? Ou isso é uma ironia?”.

sábado, 20 de novembro de 2010

Solidariedade é dever, não esmola

Presentear alguém é algo típico do natal, e isso faz as pessoas pensarem que solidariedade é um feito extraordinário. como uma qualidade, engana-se quem assim pensa. Pois já dizia o filósofo grego Epicteto “Eu sou uma parte de tudo, tal como a hora é uma parte do dia”, ou seja, nós fomos formados pela sociedade e fazemos parte dela, não há no mundo um ser humano que se formou sozinho. Portanto solidariedade não é algo como uma esmola ou um presente, ser solidário é de dever de todos, e a solidariedade deve ser exercida todos os dias do ano, em cada momento de nossas vidas, não importa a ocasião.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sobre números e seres humanos

Apesar dos números apresentarem dados que favoreçam a ideia de que o estado capitalista é mais desenvolvido, percebe-se que os números, apesar de exatos, são delimitados quando buscam compreender a realidade, isso ocorre porque os números só conseguem analisar a realidade concreta, sendo estes incapazes de compreender a realidade humana, que por característica própria é cheia de abstratismos, estes só perceptíveis através da análise da Filosofia e/ou das Ciências Humanas e Sociais.

Apesar dos números revelarem dados reais sobre determinada situação, eles são adquiridos a grosso modo e seus resultados são muito relativos, por exemplo, suponhamos que um determinado país capitalista possua um PIB gigantesco devido a uma indústria bem desenvolvida e uma economia bem estruturada, suponhamos também que este possua uma população relativamente pequena e um alto nível de desigualdade social e má distribuição de renda. Naturalmente que o fato de possuir grandes valores monetários e poucos valores populacionais contribuirá para uma alta considerável nos índices de renda per capita e IDH, ao mesmo passo que isso não significará que tal situação esteja realmente em concordância com a realidade prática.

E este fenômeno é bastante presente na sociedade capitalista contemporânea, que por possuir uma concepção positivista em relação à realidade acaba por supervalorizar os números em detrimento da realidade prática, e essa supervalorização dos dados numéricos mascara a verdadeira realidade do capitalismo, que é naturalmente exploratória e desigual. E quem se aproveita disso são os países capitalistas desenvolvidos, que através dos números passam a imagem ilusória de sucesso econômico e social.

Mas ainda é preferível uma nação “pobre”, porém justa do que uma que se vangloria de seus ganhos e lucros, mas que não passa de uma grande máquina de exploração que favorece uma pequena minoria. E por mais que os números possam medir os avanços eles não podem compreender a injustiça da exploração do trabalho através da mais-valia, eles não podem revelar como é injusto e desumano um sistema que tem como principal característica a exploração de uma classe social, que se rebaixa a um nível subumano e é explorada em prol da concentração de renda em uma classe social que, através da manipulação, se reafirma cada vez mais como dominante e exploratória.

Liberdade do primeiro ao último segundo de vida

O filósofo Jean-Paul Sartre afirmava que “O homem está condenado a ser livre”, e com certeza suas palavras estavam certas, afinal a liberdade está presente durante toda a nossa existência, desde as escolhas mais simples e fúteis às mais complexas e importantes. Por isso devemos sempre ter em mente que, apesar de ser impossível mudar o passado, é possível mudar o futuro, e esta mudança ocorre através das nossas escolhas, no pleno exercício da liberdade. A única coisa que não podemos mudar é a própria liberdade, que não importa o que aconteça, nos acompanha do primeiro ao último segundo de vida.