terça-feira, 31 de outubro de 2017

I AM MAIK BAURUTAYNC, O VILÃO COM CARÁTER ATÉ DEMAIS - SUMÁRIO & PRÓLOGO

I AM MAIK BAURUTAYNC,
O VILÃO COM CARÁTER ATÉ DEMAIS


SUMÁRIO


PRÓLOGO
P.1 Maik Baurutaync
P.2 Maior Idade
INÍCIO
I.1 Ilacima, filha da cidade
I.2 La Luna
I.3 Deputado
I.4 A puta e o político
MEIO
M.1 Missa e show
M.2 The Sun
M.3 Zap pra feminista
M.4 Ilha-lagoa
FIM
F.1 A novinha Cecilia
F.2 Tiquitaqui, Chupinzinho e a justiça divina
F.3 A craquenta do Jáque
F.4 Estrela da morte
EPÍLOGO
E.1 O apê do Ébio
E.2 Kurityba
E.3 Ursinho
E.4 Fechamento


PRÓLOGO


P.1 Maik Baurutaync

No fundo da cidade-abusada nasceu Maik Baurutaync, vilão de gente nenhuma. Era cinzavermelhado fosco e filho da bravura do dia. Houve um momento em que o barulho foi tão grande escutando a gritaria de Kurityba, que a índia guarani pariu uma criança linda. Essa criança é que chamaram de Maik Baurutaync.
- Que porra é essa que tu tá falando, maluco?
- É o parágrafo inicial mano.
- Que que o que?
- O parágrafo de abertura do conto.
- Conto? Que conto?
- Esse conto que a gente tá no meio.
- Cê tá maluco, véio?
- Eu posso até tá maluco, mas você com certeza é um iludido.
- Tá me tirando?
- Não cara, é a realidade, digo... a ficção... que é a nossa realidade. Mas, me diga, o que que tu vê ao teu redor?
- Uai, eu vejo um monte de prédio pichado, gente andando e correndo de um lado pro outro. Um monte de ônibuses colorido, meia dúzia de táxi laranja, uma araucária, uma passarinho azul, um senhor sentado aí no can...
- Tudo mentira, meu velho, tudo ilusão, tudo FI-QUI-SÃO. Sás coisa que ocê vê nada mais é que coisas que o escritor acabou de escrevê só pra fazê você vê. Na real tudo que tem aqui ao redor e tudo o que a gente é é um monte de letrinha preta numa folha branca. Por mais que você não acredite, essa que é a verdade... a verdade é que tudo é mentira.
- Tu é mesmo louco de preda.
- Pedra e pau, piá.
- ...
- Se assustô é?
- Não, só fiquei de cara coa tua loucura.
- Loucura nada, eu sô é louco de esperto, porque eu sei no que que a gente tá metido.
- E no que que a gente tá metido?
- Num conto escrito por um escritor chamado Bruno Orsatto Lanferdini.
- Nunca ouvi falá.
- Nunca ninguém ouviu mesmo, ele é bem desconhecido, até agora não publicou uma porra e só tem um bloguizinho que nem a mãe e nem a irmã e nem a própria esposa leem. Mas é o blog no qual ele vai postar... ou já postou, sei lá, esse nosso conto, pra mandar o link pra Professora.
- Que Professora?
- A Professora que vai ser a primeira a ler essa porcaria aqui... deixa eu te explicá melhor. É que tem uma Professora chamada Milena Ribeiro Martins que veio de lá de São Paulo pra dá aula aqui na UFPR, daí nesse nosso ano de dois mil e dezessete ela tava dando aula de Literatura Brasileira II pro mardiçoado do escritor que está escrevendo esta digníssima porra e fez uma proposta irrecusável: ao invés de fazer a segunda avaliação os alunos poderiam fazer uma atividade criativa, daí o Bruno véio falou “Ai, que preguiça!” e ao invés de ter que acordar cedo pra ir fazer a prova resolveu fazer a tal da atividade criativa.
- Hmmm, que besta.
- Por que?
- Porque vai tê que escrevê mais do que se tivesse que fazê a prova.
- Mas pra ele escrevê nem é o probema, o poblema pra ele é tê que acordá cedo.
- Hmm, e a atividade é escrever um conto...
- É, tipo assim, ele vai fazê um conto que é uma paródia do Macunaíma.
- Uma o que do que?
- Ele vai, tipo... faiz assim... vamo perguntá pro loco véio em pessoa qu’ele tá passando aí ó. Ô, Bruno! Chega mais!
- Opa meu personagem, tudo bem contigo? E aí cidadão, belezinha?
- Você que é o tal do Bruno então...
- O próprio, em papel e tinta, hhh.
- Esse cara aqui tá falando que a gente tá num conto que você tá escrevendo...
- Anrrã, bem isso...
- ...Isso aqui foi combinado?
- Olha... de certa forma sim.
- Eita porra, tô no meio de dois locos.
- Fique susse mano, todo mundo é loco.
- É, isso meio que é verdade...
- Então, Bruno, eu tava explicando pra ele do conto...
- Pois é, então, qual qu’é o teu nome mesmo?
- João Paulo.
- Então, João Paulo, eu vô fazê uma paródia do Macunaíma do Mário de Andrade, tá ligado?
- Mais-o-menos.
- Perfeito, ó, ele tá descendo do bonde aí do lado, qualquer coisa nóis já pergunta pra ele.
Desceu do ônibus o Mário de Andrade em pessoa, Vivinho da Silva, todo bonitão de terno e gravata e com uma boina vermelha na cabeça.
- Graaande Super Mário.
- O que? - exclamou o Mário, que na trapalhação acabou chutando uma tartaruguinha, que se escondeu pra dentro do casco e saiu escorregando por aí.
Ele foi se aprochegando e o autor já foi todo afobado pra cima dele.
- Mário de Andrade, meu Deus, que honra. Eu me chamo Bruno Orsatto Lanferdini, escritor, também, é uma imensa honra e um grande prazer conhecê-lo.
- Prazer.
- Deixa eu te apresentar, esses são os meus personagens, esse é o protagonista, o Maiki Baurutaínski.
- Prazer.
- Prazer, então você que é o herói...
- Na verdade eu sou um vilão, senhor.
- Vilão!? Como protagonista!? Interessante! Então isso quer dizer que você não tem nenhum caráter, Ahah...
- Na verdade eu tenho caráter até demais.
- Qual! Um vilão com caráter até demais!
- E esse daqui é o João Paulo, ele mora na rua, que nem o Maik.
- Prazer.
- Prazer.
- Então, Mário, eu tava explicando pra eles que eu tô fazendo uma paródia do teu Macunaíma.
- Sim.
- Daí eu te conjurei aqui pra gente batê um papo.
- Pode ser, estou sem pressa hoje.
- O João disse que conhece mais ou menos o Macunaíma, cê já leu ele?
- Não, nunca li nada, sô analfabeto. Mas conheço a estória.
- Conhece de onde?
- Eu ouvi um velhinho que cantava ela enquanto tocava violão na rua.
- O que!? Quem era esse?
- Será que não era o Raul Seixas?
- Não, com certeza não.
- O Ventania?
- Também não, já vi o Ventania e não era ele não.
- Hm, não era um que fica tocando com um tecido branco estendido na frente pras pessoas escreverem coisas com letras coloridas?
- Sim, um que anda de bicicleta.
- Á, então era o PLÁ!
- Sim sim, era bem esse o nome dele, agora eu me lembrei.
- Qual! Mas esse sujeito decorou o meu livro só pra ficar cantando ele por aí!?
- Olha senhor, o que ele me disse foi que ele ouviu essa estória de um papagaio.
- Ah ah ah, esse um deve ser ainda mais louco do que eu.
- Olha, que ele é bem locão isso eu te garanto que é... um verdadeiro maluco beleza.
- Ah ah, mas, Bruno, tu estavas dizendo que está fazendo uma paródia do meu livro, me diga, o que você vai fazer de diferente?
- Pois então, Senhor Mário...
- O Senhor tá no céu.
- A, OK, desculpa, Mário, então, existe uma diferença essencial entre as nossas concepções sobre o que é o Brasil. Você o vê como uma país gigante e singular com uma diversidade riquíssima, eu, em relação à sua concepção, só concordo com a parte da diversidade, de resto eu tomo outra direção, eu concebo o Brasil como uma pluralidade de países, todos eles gigantes independente dos seus tamanhos, e todos eles com características bem definidas e distintas.
- Sim...
- Você acredita num Brasil com vários estados que possuem suas diferenças culturais, mas que num geral, tem mais coisas em comum entre si e mais semelhanças com uma suposta cultura nacional unificadora. Eu admito que existem sim muitas semelhanças e que existem muitas coisas que unificam todos os Brasis (que podem ser cinco ou vinteseis ou cem ou mil Brasis), mas acho que existem mais diferenças do que semelhanças. Por isso eu concebo o Brasil como uma pluralidade, e prefiro usar o termo “Os Brasis”.
- Teoria interessante.
- Pois então, daí no Macunaíma você tenta retratar essa riqueza cultural do Brasil justamente tentando recolher o máximo de elementos dessa diversidade cultural e juntando tudo num caldeirão e misturando tudo, desgeograficando a coisa.
- Bem isso.
- Apesar de que, me desculpe, mas eu tenho que dizer uma coisa, não me identifiquei nem um pouco com o texto e fiquei sinceramente triste, apesar das boas risadas.
- Meu! Porque?
- Por que eu acho que você ignorou quase por completo o Sul do Brasil.
- Você acha?
- Acho, em nenhum momento do texto aparece a palavra chimarrão, as palavras tererê e gaúcho, se eu não me engano ou não aparecem ou se aparecem é só uma vez. A palavra araucária tambêm não aparece em momento algum, e quando você cita o pinhão você o faz escrevendo “pinhão paraguaio”. A palavra Paraná só aparece uma ou duas vezes, e apesar de você falar de um licor catarinense o termo Santa Catarina não aparece no livro, assim como o termo Rio Grande Do Sul.
- Nossa! Me desculpe por isso, mas é que eu realmente nunca conheci o Sul.
- Sem problemas, deixe estar.
- ...
- Com o meu conto eu pretendo, justamente, preencher esse “buraco”. Porque ele vai se passar só no Sul, afinal, eu confesso que com 24 anos nas costas eu nunca saí do Sul do brasil, nunca vi sequer uma árvore plantada em solo não-sulino. Portanto não vou ficar por aí cantando terras que eu nunca vi.
- Bem que faz.
- E não vou desgeograficar nada, do contrário, vou tentar ser o mais preciso possível, retratando cada uma das regiões que eu conheço ao longo desse Sulzão de Deus com o máximo de exatidão que eu puder. Mas, é claro, sempre tendo em mente as minhas limitações e as características da minha fala, das quais eu não posso fugir.
- Que limitações?
- A limitação de eu nunca ter saído do meu Brasil e não saber com exatidão a fala dos outros, além do mais, eu nasci e vivi até os vinte em Fraiburgo...
- Friburgo?
- Não, é Fraiburgo, com ai de “Ai! Que preguiça!”
- Ah ah, não, nunca ouvi falar.
- Então, é uma cidadezinha do interior de Santa Catarina que fica mais perto de Curitiba do que de Floripa e que recebe influências culturais em igual peso do Paraná e do Rio Grande Do Sul, portanto, como eu digo, é o único lugar do Brasil onde você pode ouvir um tchê no começo da frase e um daí no fim hhh, por exemplo: “Bá tchê, daí qu’eu achei o tchozinho baruiando lá na rua debaixo, daí” hhh
- Meu Deus! Não entendi nada!
- Huahauhuahau, pois é né, então, como eu vou escrever um conto...
- Uma paródia.
- É, uma paródia, não-desgeograficada se a minha própria língua nativa já é desgeograficada?
- Isso é um problema seu.
- Sim, e põe problema nisso...
- ...
- Outras diferenças que vão existir na minha paródia é o fato de que ao invés de um herói sem nenhum caráter o meu protagonista será um vilão com caráter até demais, você criou um anti-herói e eu criarei um anti-vilão. E o fato de que você fez um romance conciso, eu farei um conto prolixo.
- E as semelhanças?
- Vou tentar ser tão agil e tão engraçado quanto você, e tentar seguir mais ou menos a mesma linha narrativa, recriar as mesmas ações... e retratar e misturar a linguagem mais erudita com a mais popular. E outra semelhança: nós dois somos loucos.
- Isso é verdade
- E falando em linguagem e concisão, já está quase dando a hora e eu aqui te passando sermão nesse prólogo desinteressantíssimo.
- Ah ah, verdade, bem desinteressante.
- Vamos, eu tenho que voltar pro mundo dos vivos e você pro mundo dos mortos, mas antes de ir, Mário, leva esse elogio com você: Mário, você está de parabéns, você é um escritor excelente e o seu Macunaíma é um dos livros com mais velocidade e um dos mais engraçados qu’eu já li em toda a minha vida
- Muito obrigado, mas antes de irmos, posso te fazer uma pergunta?
- Claro.
- Você que é um moço com tendências modernistas: Você ama de verdade a vida?
- Nossa, Mário, que pergunta! Com certeza que eu amo a vida, de verdade verdadeira. Eu aproveito cada dia como se fosse meu último. Olha, essas tatuagens aqui no meu braço esquerdo servem pra me lembrar disso, ó, CARPE DIEM e MEMENTO MORI.
- Que bom, por que a maioria desses jovens modernistas de hoje em dia não amam a vida de verdade, daí tudo que eles escrevem sai com cheiro de defunto, isso é ridículo. Se você ama de verdade a vida, mesmo que esse conto acabe saindo ruim, pelo menos ele terá vida.
- Caramba, obrigado pelas sábias palavras, Mário, agora vamo dexá esses otros dois locos continuá a conversa deles.
- Vamos.
Os dois escritores sumiram.


P.2 Maior Idade

- Caralho
- O que foi?
- Eles sumiram.
- Sim, eu vi.
- Eu não acredito qu’eu vi isso, acho qu’eu devo estar surtando.
- Viu, falei, todo mundo é loco e nózes estamos num conto.
- Eita porra.
- Então, mãos à obra qu’eu ainda tenho que contar pra você a istória da minha vida até agora, ou seja, até a minha maior idade.
- Bocê tá com dezoito anus?
- Anrrã.
- Hahaha.
- O que?
- Não, nada, pode continuar.
- Pois então, eu nasci lá pra baixo, entre o Pinheirinho e o CIK. A minha mãe era uma índia de origem guarani e kaingang de nome Ana Maria Guarakang Baurú e o meu pai era um polonês de nome Pedro Ivanovitch Taínsky, que a mãe era uma mistura de italiano com alemoa e o pai era uma mistura de russo com chinesa. Ele abusô dela e fez ela prenha, daí o meu avô, que era índio velho e não gostava desse tipo de brincadeira fez os dois casá, daí quando eu nasci e foram me registrar, o escrivão achou aquela mistura de nome tão esquisita que escreveu tudo junto e tudo errado, daí Baurú mais Taínsky saiu Baurutaync. Casaram, o meu avô me batizou, e foram tudo as família vivê na mesma oca, era um aperto que meu Deus dos céu, pra tu tê uma ideia, como não tinha berço a gente dormia num beliche improvisado, o meu pai pregô umas madeira na parte de cima pr’eu não caí e dormia eu em cima e o casal em baixo, daí volta e meia, no meio da noite, eu mijava quente em cima dos véio.
- Que nojo.
- E eu tinha, ainda tenho, dois irmão mais velho, o Maanoelo, que é o mais velho e já é um cachorro véio memo, e o Jáque, que é o do meio e já é sujeito home, ele é um gato. Eu sô o caçula, e sô essa porra aqui mesmo. E desde criança eu já era safadinho, vinha alguma muié querê brincá comigo e eu já ia mechendo nas graça dela, umas recuava, otras achava graça e dava risada, na cara dos ómi eu guspia. E não gostava de saí de casa não, se me levavam pra fora eu abria um berrero satânico, eu só queria sabê era de í no porão, enquanto minha mãe tava lavando a loça eu pedia ‘mãe, me leva pu porão’, ela ‘não, qu’eu tô ocupada’, daí um dia eu pedi ‘mãe, lev’eu pu porão’ ‘não, t’ocupada’ ‘então pede pa Nina levá eu’ (Nina era a namorada do meu irmão Jáque) ‘Nina, leva o piá pu porão’ ‘levo sim sogrinha’, daí ela me levava e eu virava num príncipe gostoso e nóis passava a tarde inteira brincando. Foi assim por um tempo, até que um dia o Jáque descobriu, deu uma sova de pau nela e se desfez dela. Arranjô otra chamada Natacha, e nóis também, volta e meia, dava umas brincada no porão, o Jáque é bobo. Até que uma veiz tud’os’óme que trabaiava lá em casa perdero emprego, e eu tive que saí pa rua pa pedí esmola, pedí prum tio deficiente uma vez um pedaço do pastel que ele tava comendo e ele me deu uma mordida, ele me pediu que idade eu tinha e eu disse qu’era criança, ele disse qu’eu não era criança não, que criança que faz essas coisa n’é criança não, e me disse que s’eu quisesse mais comida tinha uma lanchonete mais pa frente, virando a esquina, que me dava comida, mas ele queria era come eu, eu fui e fui e ele foi indo atrás, me perseguindo, daí eu me perdi e nisso eu passei mal e acabei vomitando a mordida de pastel qu’ele me deu, e depois disso ele não conseguiu mais me achá, daí eu pedí pruma véinha ‘Ô tia, dá uma moeda ou uma comida p’eu’ ela me preguntô umas coisa e eu disse como qu’eu despistei o tio deficiente, ela riu e chorô e pediu a minha idade, eu disse qu’era criança e ela disse que criança não faz essas coisa não, daí ela me deu um dinheirinho e me deu umas roupa, me deu uma camisa branca e um terno e gravata pretos, um pouco frouxos, e eu voltei pra casa. E quando eu tava voltando o tio deficiente me achô na esquina e me comeu num beco, ele brincô de lutá comigo.
- Que horror!
- Sim... mas eu não gostei e voltei pra casa tão furioso que fui lutá de brincadeira coa Natacha no porão até mais tarde, daí o Jáque chegô e ficô fulo, deu uma sova nela, mas no fim dexô ela comigo. Daí por causa da falta de dinheiro e comida e por causa do acontecido comigo e coa Natacha todo mundo lá em casa começô a brigá, eu fui dormí e sonhei que perdia tud’os dente da boca, quando acordei todo mundo ainda tava brigando, daí o meu pai ficô tão pissudo lá umas hora que pegô a minha mãe e jogô ela pra cima com tanta força que quebrô o teto da casa e mandô ela lá pro céu, acho qu’ela virô uma estrela, daí o meu avô também ficô puto e jogô o meu pai pro céu. Daí todo mundo lá na casa começô a se pregá no cassete, até que a casa começô a pegá fogo e desabô com todo mundo dentro. Só eu e a Natacha e os meus mano conseguimo se salvá. Daí no dia seguinte o Maanoelo, que é um grafiteiro de mão cheia, pegou um pedaço de concreto na rua, colocou em cima dos destroços da casa queimada e fez um grapicho bem assim:

PAI & MÃE
AMORETERNO

E saiu nós quatro de mão dada por esse mundão afora.
- Porra! Qu’estória hein.
- Puis é, chegaram os meus mano me buscá, vô nessa. Valeu?
- Falô.
O Maik entrou no fusca e foram-se embora.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O poema do qua qua

Eu sonhei que a vida era uma loucura
Você se casava com um gorila
E eu era um patinho feio e xôxo
Horroroso
Choroso
E chororoso
Você andava de bicicleta
E distribuia sorrisos
Beijos
Sementes
Abraços
Flores
Trecos e troços
Pedaços de coisas
Gotas furadas
Edifícios altíssimos
E eu caia de lá de em cima de você
Tadinha
Eu te machuquei?
Desculpa
Eu te pedia pra desabrochar
E sorrir
E cantar
E você cantava
Que linda
Que pequeninina
O que eu queria mesmo
Menina
Era guardar você no meu bolso
Qua qua

Bruno Orsatto Lanferdini
Curitiba - 04.05.2017

coraçãobarranco

minha sombra se deita
comprida
sobre o chão
curto
é o espaço
limpo
pra pisar
cachorros
sujos
vem farejar
a minha calça
rasgada
na esperança
de achar
carinho
o vizinho
me estende
mão inteiras
pedindo por
moedas
compaixão
em meio ao barro
bêbados
me barram
berram
vulgares
palavras
incompreensíveis
demais
pros meus
ouvidos
cansados
de ouvir sempre
a mesma canção
a chuva
que vem pra mover
o lixo
do
pro
fundo
do
meu
coraçãobarranco

Bruno Orsatto Lanferdini
Curitiba - 06.05.2017