sábado, 10 de dezembro de 2011
As oportunidades e o sucesso
Já dizia o mestre de Karatê-Dô e filósofo japonês Masutatsu Oyama: “Levar as ovelhas ao rio é dever do pastor, mas beber a água depende apenas de cada ovelha”, podemos fazer várias analogias com esta citação, mas há uma em particular que é bem aplicável às nossas vidas: Assim como as ovelhas são conduzidas ao rio, e somente elas podem decidir se bebem ou não a água, acontecem as oportunidades em nossas vidas, elas surgem e somente nós decidimos se às aproveitamos ou não, este é um dos segredos para o sucesso, saber perceber as oportunidades e saber aproveitar elas com bastante dedicação.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
A felicidade dentro de nós
O filósofo grego Epicteto aconselhava: “Não busque a felicidade fora, mas sim dentro de ti, caso contrário nunca a encontrará”. E estava certo! Muitas pessoas atualmente erram ao tentar encontrar a felicidade através das outras pessoas, achando que se forem sós e não tiverem um parceiro amoroso estarão fadadas à infelicidade eterna, estão todas enganadas! Devemos buscar a felicidade primeiramente dentro de nós mesmos, para só então passarmos a nos preocupar em buscar alguém para poder compartilhar essa felicidade. Os bons amores devem vir naturalmente, e não forçosamente através de buscas desesperadas.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
O ciclo vicioso da vergonha, das frustrações e da repreensão
“Os que dançavam foram chamados de loucos pelos que não sabiam ouvir a música”, com essas palavras o filósofo alemão Friedrich Nietzsche narrou um triste fato: as pessoas não realizam suas vontades por vergonha da opinião alheia e por medo de serem reprimidas, logo estas pessoas ficam frustradas e passam a repreender e oprimir os outros quando estes tentam fazer o que querem. Para quebrar este terrível ciclo vicioso as pessoas deveriam agir conforme suas vontades (desde que isso não prejudique ninguém, obviamente) e parar de tentar reprimir os outros, quando estes tentam fazer o que desejam.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Ode Sarcástica À Glória Bélica
TCHAM
TCHAM TCHAM TCHAM TCHAM
Mas
que bela música é essa que teima em acariciar meus ouvidos?
Calma
... calma
Acho
que já sei qual o nome da música
Acho
também que sei o nome da banda
São
homens carecas
Que
não tem nomes
Só
números
Um,
dois, três, quatro, cinco, seis, sete, mil
Coturno,
capacete, granada, bomba e fuzil
Eles
fazem um belo show
Desenham
cogumelos cinzas no céu
E
pintam a terra de vermelho
Ah,
mas quanta glória há nisso
É
belo
É
uma honra
É
cumprir com o nobre dever de insultar a vida e a humanidade
Realmente,
é lindo
A
arte de tirar a vida
De
criar viúvas
Mãe
tristes
Pais
desolados
Potenciais
furados
Futuros
inacabados
Tá,
parei, chega de escárnio
Minha
língua já dói
Mas
só quero falar uma coisa
Triste
viver num mundo onde matar e morrer na guerra é considerado glorioso
E
fazer poesia, meus caros, hã!
Não
passa de firula inútil de um pobre e vagabundo ocioso
PRENDAM-NO!
Como ser humano?
Como ser humano?
Início meu discorrer com um questionar
Este originado de um melancólico observar
Seres bípedes e estranhos por aí caminham e agem
Sem entender o que são e como o fazem
Ser humano seria por acaso degustar peculiaridades exóticas
E ser indiferente perante a fome do faminto
(ó! pobre coitadinho! Passe-me o caviar sim?)
Ou talvez ser humano seria estudar
Para ser sútil, complexo e metódico
Para adiantar o processo que com certeza virá
(Sem dúvidas, nos tornaremos cinzas, mas que tal Carpe Diem um pouco?)
Ou ser humano talvez seja protestar pela vida do roedor
Pobre coitado, nada tem a ver com nossos problemas e infortúnios
(Os doentes que morram e os aleijados que se fodam,
Mas pelo amor de uma mentira sobrenatural e surreal!!!
SALVEM OS POBRES RATINHOS!!!)
Temo meu prolongar
E no fim de tanto discorrer e dissertar
Pensar e dispensar
Chego à conclusão
Não sei o que é esse tal de humano
Nem sequer posso imaginar como ser humano
Mas quando não sei e o admito me mostro nobre
E me orgulho da minha ignorância como da minha curiosidade
Como ser humano?
Não o sei
Só o sou
domingo, 3 de abril de 2011
Ser humano, ser social, ser ético
O humano é naturalmente dependente da sociedade, pois necessita dela para se tornar ser humano e sobreviver, pode-se dizer que a convivência é necessária para a sobrevivência. Necessitamos de alguém que mora a quilômetros da nossa casa para plantar o trigo que faz nossos pães, e precisamos da atendente da padaria para nos vender estes pães, precisamos de um professor para nos ensinar a escrever e precisaremos de um médico para nos curar algum dia. Portanto, se é a sociedade que forma o humano, e o mantem vivo, é seu dever ser grato á sociedade por isso, e como ser grato? Simples, basta ser ético.
domingo, 20 de março de 2011
A virtude do equilíbrio
Já se discutiu muito sobre qual seria a principal virtude a ser cultivada pelo humano, muitos afirmam ser a coragem, outros dizem que é a inteligência, e ainda há aqueles que acreditam ser a bondade a principal virtude. Mas dentre todas as virtudes, a que é realmente superior é o equilíbrio, pois cada momento da vida exige virtudes diferentes, enquanto que a cada instante de nossa existência é necessário ser equilibrado. Por exemplo, para enfrentar nossos medos, devemos ser corajosos, para planejar nossas ações, devemos ser inteligentes, e para agir com os outros devemos ser bondosos, mas para fazer qualquer coisa precisamos usar a razão, e o ser humano só consegue usar a razão de maneira plena, quando está equilibrado, pois os exageros só conduzem o humano para os erros, as ilusões e os vícios.
A mentira romântica
O famoso “mito das almas gêmeas” afirma que o destino reserva para cada pessoa o amor único e verdadeiro de suas vidas, e que a única maneira de encontrar a felicidade é se unir a essa pessoa. Os que crêem nisto estão enganados, pois este mito é uma mentira. Na realidade, todos são livres para amar e “desamar” quem quiser, e qualquer um pode ser feliz da maneira que escolher, basta ser justo e lutar pela felicidade. O que não se pode fazer é crer que a felicidade depende de outrem, pois cada pessoa é responsável por sua felicidade e tem plena liberdade para alcançá-la de maneira independente.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Nunca é tarde para recomeçar
Quando se inicia a longa caminhada da vida a animação é inevitável, a energia é tão grande que se tem vontade de acordar a cada manhã cada vez com mais vigor e vontade de lutar por seus sonhos, sonhos estes tão belos, que nos motivam a dar nossos passos cada vez com mais certeza e convicção, porém, nem tudo é perfeito, e em determinado momento a caminhada começa a ficar difícil, e os inúmeros tropeços ao longo do caminho começam a criar feridas muito grandes, e isso somado ao vento forte que bate contra o rosto faz surgir na mente a sensação de derrota, e quando nos damos conta, já não temos mais certeza se vamos chegar com sucesso ao fim da estrada, que parece se distanciar cada vez mais. Porém, não importa o que aconteça, sempre é possível recomeçar, é só levantar a cabeça e esquecer a dor que tudo ficará bem, não importa em que momento ou condição se está, nunca é tarde para buscar a felicidade, e enquanto você for dono de seus pés, você poderá colocá-los na direção que quiser.
sábado, 1 de janeiro de 2011
João
Joãozinho era um menino serelepe e espoleta, nasceu numa casa de madeira no meio das plantações de trigo da família, era muito amado por seu pai e sua mãe, mas mesmo que estes o amassem não o mimavam de forma alguma “Se piá não sofre não se cria” dizia seu pai quando questionado sobre as palmadas que dava na bunda dele quando aprontava além da conta. Ele era uma criança muito faceira, que gostava de correr com os braços abertos e fingir que era avião. E quando ainda era pequenino, enquanto acompanhava o trabalho dos pais na roça, gostava de remexer a terra, “É bão que num tenha medo de se sujá, significa que vai virá hómi feito e vai sê trabaiadô e honesto que nem o pai”, falava seu pai, que desde cedo ao ver o menino mexendo na terra sentiu um profundo orgulho, e de certa forma um alívio também, pois é muito vergonhoso ter um filho vagabundo, ele já não aguentava mais de dor nas costas, e estava morrendo de vontade que o piá crescesse rápido e pudesse ajudá-lo no trabalho duro da roça.
E assim aconteceu, em um piscar de olhos do Senhor Jorge ele já estava com a enxada na mão e a vontade de trabalhar nos olhos, já era um belo rapaz de 12 anos que não tinha medo do sol quente e da dor nas costas. A vida era simples na roça, acordava pela manhã e comia café com pão, ia trabalhar, voltava para o almoço e comia um prato cheinho de arroz com feijão, voltava para o trabalho, e quando ia escurecendo voltava logo para casa, jantava outro café com pão e ia para a cama, dormia até de manhã, quando começava outro dia igualzinho. E assim os dias passavam na roça, a não ser no domingo, quando parava de trabalhar mais cedo para ir fazer festa com os amigos, e dançar com uma ou outra moça bonita. E nos sábados, quando parava de trabalhar mais cedo para ir à missa.
A missa era muito importante para João (não era mais chamado de Joãozinho), porque na missa ele se encontrava com Deus, e isto sim é que era muito importante. E apesar de nunca ter visto ele e não saber de onde ele veio, ele acreditava muito nele, todo dia antes de dormir rezava pra Deus. Primeiro ele agradecia por tudo que ele tinha, a casa, o sítio, os alimentos, seu pai, sua mãe, a enxada. Depois ele pedia que Deus protegesse sua família, que nada acontecesse com seu pai ou com sua mãe. E por último ele até se dava ao luxo de pedir uma melhora de vida pra Deus, ele rezava da seguinte maneira “Deus, meu bom sinhô, sei que nós devemo agradece por tudo que nóis tem, sei que nós num devemo reclamá dessa vida, e agradeço por tudo que o sinhô tem dado di bão pá nóis, mais por favô, melhora a vida de nóis da roça, é que o pai já tá ficando véio e num consegue mais trabaiá, tá batendo a tristeza na mãe porque ela num guenta vê o pai desanimado, e as prantação já num dá como antes, faiz nós melhorá di vida sinhô, que já num guento mais di tanta dor nas costa”.
“Capaz mesmo que vó metê meu fio numa escola, aquilo lá é coisa pra vagabundo, é mio fica na roça trabaiando do que í lá numa salinha sem fazê nada” Dizia Seu Jorge quando alguém perguntava sobre o fato de o João nunca ter frequentado a escola. Ele era bem claro ao dizer que achava a tal da escola uma coisa para frescos, pois pensava que homem que negava o trabalho pra ficar numa salinha, parado e sem fazer nada, não era homem de verdade. E João também pensava assim, afinal, quem era ele para duvidar da palavra do pai? Sabia desde pequeno que nunca se deve desrespeitar nem duvidar das palavras dos mais velhos. E se tinha alguém que o João respeitava era o pai, a mãe, os mais velhos, e o padre, afinal, ele era mensageiro de Deus, era dono da verdade.
E assim os dias foram se passando na roça, do mesmo jeito de sempre, um dia igual ao outro, uma semana igual à outra, um mês igual ao outro, um ano igual ao outro, e todas essas semelhanças faziam o tempo passar muito depressa, tanto que o único dia diferente aconteceu quando João já estava com 26 anos. Foi quando surgiram além dos campos tratores e outras máquinas, que faziam em um dia o que eles faziam em um mês. Era um proprietário novo, que havia se apossado de todos os sítios vizinhos, e como era um homem muito rico, comprou máquinas e estava fazendo lucro como nunca antes havia sido visto por esses cantos. E ninguém mais estava comprando trigo deles, porque diziam por aí que o trigo das máquinas era melhor.
Os dias foram passando, e a miséria se aproximava da casa deles. Até que certo dia o inevitável finalmente aconteceu. Alguém bateu na porta da velha casa de madeira, era uma batida tão formal que não era possível imaginar quem batia, Seu Jorge foi atender e convidou o visitante a entrar, era um homem vestido de terno e gravata, e a visão que se tinha de um homem assim numa casa tão simples era um tanto quanto esquisita e surpreendente. Ele sentou-se à mesa, e ia pondo a mala sobre ela, quando a mirou por um pequeno instante, e pousou a mala sobre o colo, com um certo ar de nojo. Então a voz seca e áspera de Seu Jorge quebrou o silêncio causado pela surpresa de uma visita tão inesperada “Então, me diga o que cê qué?” questionou Seu Jorge enquanto se apoiava na estante, “Seu Jorge, serei direto...” disse o homem de terno, “Então desembucha” cortou Seu Jorge, que parecia não estar gostando muito da visita, “Enfim, como ia dizendo, A Imperial Predator S. A. deseja comprar suas terras” e o homem de terno foi abrindo a mala, “e nós já temos um valor em mente”, e retirou dela um pequeno cartão “que eu posso dizer, é irrecusável” e o passou arrastando ao longo da mesa até próximo ao Seu Jorge, “principalmente se observarmos suas atuais condições” disse rispidamente o Homem de Terno enquanto olhava com um olhar de desprezo, que passava pelas paredes indo até o teto. Quando impressionantemente Seu Jorge rasgou o cartão sem sequer olhá-lo e disse num tom de voz de quem está rasgando não só o cartão, mas o assunto também “Essas terra são minha, e num vó vendê pá ninguém”, um sorriso zombeteiro foi crescendo no meio dos lábios do homem de terno que disse “Senhor Jorge, sei que irá me procurar, portanto aqui está meu cartão”, disse o Homem de terno tirando de dentro do bolso do terno outro cartão e o deixando sobre mesa (esse ele não arrastou ao longo dela) enquanto se levantava.
Seu Jorge não falou mais nada, caminhou linearmente com passos firmes e decididos em direção à porta e a abriu, e ficou esperando o visitante sair por ela enquanto segurava a maçaneta enferrujada com as mãos firmes, e quando o homem de terno pôs os dois pés para fora da casa Seu Jorge bateu a porta às costas dele sem esperar um segundo. “Esses bando de inútil ficam trazendo esses lixo aqui pra casa”, bufou Seu Jorge enquanto ia caminhando em direção ao cartão com a evidente intenção de rasgá-lo “Não!”, gritou a mãe com um grito agudo e rouco, e foi em direção ao cartão e o segurou fortemente na mão direita, “O que você qué Jorge? Que a gente morra de fome?” perguntou a mãe com lágrimas nos olhos, “Tereza, num vó vende as terra só porque a gente tá passando por um momento ruim, num vó!” gritou Seu Jorge com raiva “e além do mais” falou Seu Jorge em um tom perceptivelmente mais baixo “Eu tenho muita fé em Deus, eu acho que as coisa vão melhorá pá nóis”, “Só que é que mió num tê terra do que tá morto de fome”, disse a mãe com lágrimas nos olhos, e se virou para ir caminhando em direção ao quarto, “Pai, nóis vamo tê que vende as terra?” perguntou João de um jeito que misturava surpresa e curiosidade, Seu Jorge não respondeu e caminhou em silêncio em direção ao quarto, mas mesmo sem respostas João ficou em silêncio, e decidiu em não insistir no assunto, pois sabia que insistir significava causar muita dor.
Os dias que se passaram depois destes acontecimentos foram muito tensos e marcados por vários olhares silenciosos, mas muito expressivos, e a expressão que se podia observar nos olhos de todos os integrantes da família Pereira misturava sofrimento, causado pelo duro trabalho numa terra que não estava dando resultados, e tristeza, causada pelo fato deles saberem que uma hora ou outra teriam de abandonar tudo que eles tinham na vida, mas bem dentro do olhar de cada um deles, podia ser visto um pequeno brilho, que era uma mistura de fé com esperança, pois por mais que as coisas estivessem ruins eles tinham muita fé, e realmente achavam que uma hora ou outra as coisas iriam melhorar. E desse jeito os dias foram passando, a comida foi sumindo das prateleiras, e a dor foi atacando sem compaixão as costas e os braços do Seu Jorge, do João, e até da mãe Tereza que por não ter o que cozinhar ou o que limpar teve que ajudar com o trabalho duro da terra. Até que certo dia Seu Jorge e João voltaram da cidade, estavam muito cansados, e não tinham conseguido vender nada do trigo que eles produziram, “Tem alguma coisa pa comê?” perguntou Seu Jorge (apesar de saber a resposta), “Não”, respondeu a mãe Tereza sem mais delongas, “Então num tem jeito, amanhã eu vó lá nos hómi vendê as terra, porque mais vergonhoso que num tê terra, é dexá a família morre de fome”, e após isso ninguém falou mais nada, o silêncio conseguiu expressar melhor o que eles sentiam.
E assim aconteceu, no outro dia todos acordaram bem cedo e Seu Jorge disse para todos “eu vô sozinho lá nos hómi, e quando eu voltá nóis vamo embora pá cidade”, então Seu Jorge foi caminhando em direção às terras vizinhas, era uma longa caminhada pois a Imperial Predator S. A. possuía muitas terras, Sem dúvida esse caminho seria percorrido bem mais rapidamente se Seu Jorge estivesse com a carroça, só que eles já haviam matado os bois a bastante tempo para poderem se alimentar.
Quando voltou para casa com um cheque nas mãos, as trouxas de roupa já estavam prontas, e juntos todos eles foram caminhando até a cidade, e de lá pegaram um ônibus até uma cidade bem grande, pois Seu Jorge achava que numa cidade grande eles teriam mais chances de arranjar emprego, Dentro do ônibus a mãe pediu para ver o cheque, e quando viu olhou para o Seu Jorge e perguntou com enorme tristeza “Só isso?”, e Seu Jorge respondeu com uma tristeza do mesmo tamanho “Era isso ou morrer de fome”, e João assistia a tudo isso com os lábios em silêncio, mas com a mente gritando, e quando ele olhava através da janela do ônibus a pequena cidade se distanciando atrás deles, e a longa estrada se abrindo em frente ele sentia dentro de si aquela esperança, que não importa o que aconteça nunca morre, porque ele tinha muita fé, ele realmente achava que uma hora ou outra as coisas iriam melhorar.
Quando chegaram à cidade não acharam nenhuma casa a venda, tiveram que ficar numa pequena pensão, imunda e fedorenta, com as paredes pintadas de cinza. E no dia seguinte estavam todos nas ruas procurando emprego, mas ninguém queria empregar eles, porque eles eram analfabetos, e vieram da roça, e todos os serviços que precisavam só de força, já estavam sendo muito bem feitos por máquinas. E assim os dias foram se passando e o dinheiro foi sumindo muito rápido, pois eles tinham que pagar a pensão, que apesar de ser ruim era a única que estava disponível para eles, a comida que era de uma lanchonete da mesma rua, e a energia, a água, e as outras despesas relacionadas a higiene pessoal, roupas e transporte, afinal, não era barato ter que ficar correndo de um lado para o outro na busca desesperada por emprego, mas mesmo assim eles tinham muita fé, eles realmente achavam que uma hora ou outra as coisas iriam melhorar.
E após um longo e difícil ano de muitas lutas e fracassos, o dinheiro já havia chegado ao fim, e como sempre, Seu Jorge foi o último a chegar no quarto da pensão, e estava bêbado, então ele caminhou lentamente até o quarto e deu um beijo no rosto da mãe Tereza, que estava dormindo, e deu também outro beijo na testa do João, que estava dormindo no sofá, e em silêncio saiu do quarto.
No outro dia João e mãe Tereza acharam estranha a ausência do pai, mas acharam que ele havia saído mais cedo para procurar emprego, e essa ausência foi se prolongando e quando ele já estava sumido por três dias João teve que abandonar a procura de emprego para procurar o pai. E após uma longa procura, acharam o corpo do Seu Jorge num necrotério. Ele havia sido encontrado num beco escuro da cidade com uma faca cravada no peito, mas ninguém sabia dizer quem havia cravado a faca naquele peito, e os médios legistas não descartavam a ideia de que a faca tivesse sido cravada pelo próprio Seu Jorge. E após esse acontecimento, João e Tereza tiveram que se endividar para dar um enterro decente ao pai.
A mãe caiu numa tristeza profunda, não saiu mais para procurar emprego, e se recusava a comer qualquer coisa. Até que certo dia, ela dormiu e não acordou mais, João teve que se endividar mais ainda para dar um enterro decente para sua mãe, e decidiu sair da pensão, pois não podia mais pagá-la e nem queria mais viver debaixo daquele teto, que trouxe tanta desgraça à sua vida.
E após esse dia, ele passou a viver de esmola nas ruas, tentando se desfazer das lembranças que ele não conseguia esquecer. E por mais que ele não soubesse mais o que fazer, ele queria ter algo para fazer, e por mais que ele quisesse morrer, continuava vivo, e por mais que não soubesse aonde ir, ele caminhava, e por mais que as coisas estivessem ruins, ele tinha muita fé, ele realmente achava que um dia as coisas iriam melhorar.
E assim aconteceu, em um piscar de olhos do Senhor Jorge ele já estava com a enxada na mão e a vontade de trabalhar nos olhos, já era um belo rapaz de 12 anos que não tinha medo do sol quente e da dor nas costas. A vida era simples na roça, acordava pela manhã e comia café com pão, ia trabalhar, voltava para o almoço e comia um prato cheinho de arroz com feijão, voltava para o trabalho, e quando ia escurecendo voltava logo para casa, jantava outro café com pão e ia para a cama, dormia até de manhã, quando começava outro dia igualzinho. E assim os dias passavam na roça, a não ser no domingo, quando parava de trabalhar mais cedo para ir fazer festa com os amigos, e dançar com uma ou outra moça bonita. E nos sábados, quando parava de trabalhar mais cedo para ir à missa.
A missa era muito importante para João (não era mais chamado de Joãozinho), porque na missa ele se encontrava com Deus, e isto sim é que era muito importante. E apesar de nunca ter visto ele e não saber de onde ele veio, ele acreditava muito nele, todo dia antes de dormir rezava pra Deus. Primeiro ele agradecia por tudo que ele tinha, a casa, o sítio, os alimentos, seu pai, sua mãe, a enxada. Depois ele pedia que Deus protegesse sua família, que nada acontecesse com seu pai ou com sua mãe. E por último ele até se dava ao luxo de pedir uma melhora de vida pra Deus, ele rezava da seguinte maneira “Deus, meu bom sinhô, sei que nós devemo agradece por tudo que nóis tem, sei que nós num devemo reclamá dessa vida, e agradeço por tudo que o sinhô tem dado di bão pá nóis, mais por favô, melhora a vida de nóis da roça, é que o pai já tá ficando véio e num consegue mais trabaiá, tá batendo a tristeza na mãe porque ela num guenta vê o pai desanimado, e as prantação já num dá como antes, faiz nós melhorá di vida sinhô, que já num guento mais di tanta dor nas costa”.
“Capaz mesmo que vó metê meu fio numa escola, aquilo lá é coisa pra vagabundo, é mio fica na roça trabaiando do que í lá numa salinha sem fazê nada” Dizia Seu Jorge quando alguém perguntava sobre o fato de o João nunca ter frequentado a escola. Ele era bem claro ao dizer que achava a tal da escola uma coisa para frescos, pois pensava que homem que negava o trabalho pra ficar numa salinha, parado e sem fazer nada, não era homem de verdade. E João também pensava assim, afinal, quem era ele para duvidar da palavra do pai? Sabia desde pequeno que nunca se deve desrespeitar nem duvidar das palavras dos mais velhos. E se tinha alguém que o João respeitava era o pai, a mãe, os mais velhos, e o padre, afinal, ele era mensageiro de Deus, era dono da verdade.
E assim os dias foram se passando na roça, do mesmo jeito de sempre, um dia igual ao outro, uma semana igual à outra, um mês igual ao outro, um ano igual ao outro, e todas essas semelhanças faziam o tempo passar muito depressa, tanto que o único dia diferente aconteceu quando João já estava com 26 anos. Foi quando surgiram além dos campos tratores e outras máquinas, que faziam em um dia o que eles faziam em um mês. Era um proprietário novo, que havia se apossado de todos os sítios vizinhos, e como era um homem muito rico, comprou máquinas e estava fazendo lucro como nunca antes havia sido visto por esses cantos. E ninguém mais estava comprando trigo deles, porque diziam por aí que o trigo das máquinas era melhor.
Os dias foram passando, e a miséria se aproximava da casa deles. Até que certo dia o inevitável finalmente aconteceu. Alguém bateu na porta da velha casa de madeira, era uma batida tão formal que não era possível imaginar quem batia, Seu Jorge foi atender e convidou o visitante a entrar, era um homem vestido de terno e gravata, e a visão que se tinha de um homem assim numa casa tão simples era um tanto quanto esquisita e surpreendente. Ele sentou-se à mesa, e ia pondo a mala sobre ela, quando a mirou por um pequeno instante, e pousou a mala sobre o colo, com um certo ar de nojo. Então a voz seca e áspera de Seu Jorge quebrou o silêncio causado pela surpresa de uma visita tão inesperada “Então, me diga o que cê qué?” questionou Seu Jorge enquanto se apoiava na estante, “Seu Jorge, serei direto...” disse o homem de terno, “Então desembucha” cortou Seu Jorge, que parecia não estar gostando muito da visita, “Enfim, como ia dizendo, A Imperial Predator S. A. deseja comprar suas terras” e o homem de terno foi abrindo a mala, “e nós já temos um valor em mente”, e retirou dela um pequeno cartão “que eu posso dizer, é irrecusável” e o passou arrastando ao longo da mesa até próximo ao Seu Jorge, “principalmente se observarmos suas atuais condições” disse rispidamente o Homem de Terno enquanto olhava com um olhar de desprezo, que passava pelas paredes indo até o teto. Quando impressionantemente Seu Jorge rasgou o cartão sem sequer olhá-lo e disse num tom de voz de quem está rasgando não só o cartão, mas o assunto também “Essas terra são minha, e num vó vendê pá ninguém”, um sorriso zombeteiro foi crescendo no meio dos lábios do homem de terno que disse “Senhor Jorge, sei que irá me procurar, portanto aqui está meu cartão”, disse o Homem de terno tirando de dentro do bolso do terno outro cartão e o deixando sobre mesa (esse ele não arrastou ao longo dela) enquanto se levantava.
Seu Jorge não falou mais nada, caminhou linearmente com passos firmes e decididos em direção à porta e a abriu, e ficou esperando o visitante sair por ela enquanto segurava a maçaneta enferrujada com as mãos firmes, e quando o homem de terno pôs os dois pés para fora da casa Seu Jorge bateu a porta às costas dele sem esperar um segundo. “Esses bando de inútil ficam trazendo esses lixo aqui pra casa”, bufou Seu Jorge enquanto ia caminhando em direção ao cartão com a evidente intenção de rasgá-lo “Não!”, gritou a mãe com um grito agudo e rouco, e foi em direção ao cartão e o segurou fortemente na mão direita, “O que você qué Jorge? Que a gente morra de fome?” perguntou a mãe com lágrimas nos olhos, “Tereza, num vó vende as terra só porque a gente tá passando por um momento ruim, num vó!” gritou Seu Jorge com raiva “e além do mais” falou Seu Jorge em um tom perceptivelmente mais baixo “Eu tenho muita fé em Deus, eu acho que as coisa vão melhorá pá nóis”, “Só que é que mió num tê terra do que tá morto de fome”, disse a mãe com lágrimas nos olhos, e se virou para ir caminhando em direção ao quarto, “Pai, nóis vamo tê que vende as terra?” perguntou João de um jeito que misturava surpresa e curiosidade, Seu Jorge não respondeu e caminhou em silêncio em direção ao quarto, mas mesmo sem respostas João ficou em silêncio, e decidiu em não insistir no assunto, pois sabia que insistir significava causar muita dor.
Os dias que se passaram depois destes acontecimentos foram muito tensos e marcados por vários olhares silenciosos, mas muito expressivos, e a expressão que se podia observar nos olhos de todos os integrantes da família Pereira misturava sofrimento, causado pelo duro trabalho numa terra que não estava dando resultados, e tristeza, causada pelo fato deles saberem que uma hora ou outra teriam de abandonar tudo que eles tinham na vida, mas bem dentro do olhar de cada um deles, podia ser visto um pequeno brilho, que era uma mistura de fé com esperança, pois por mais que as coisas estivessem ruins eles tinham muita fé, e realmente achavam que uma hora ou outra as coisas iriam melhorar. E desse jeito os dias foram passando, a comida foi sumindo das prateleiras, e a dor foi atacando sem compaixão as costas e os braços do Seu Jorge, do João, e até da mãe Tereza que por não ter o que cozinhar ou o que limpar teve que ajudar com o trabalho duro da terra. Até que certo dia Seu Jorge e João voltaram da cidade, estavam muito cansados, e não tinham conseguido vender nada do trigo que eles produziram, “Tem alguma coisa pa comê?” perguntou Seu Jorge (apesar de saber a resposta), “Não”, respondeu a mãe Tereza sem mais delongas, “Então num tem jeito, amanhã eu vó lá nos hómi vendê as terra, porque mais vergonhoso que num tê terra, é dexá a família morre de fome”, e após isso ninguém falou mais nada, o silêncio conseguiu expressar melhor o que eles sentiam.
E assim aconteceu, no outro dia todos acordaram bem cedo e Seu Jorge disse para todos “eu vô sozinho lá nos hómi, e quando eu voltá nóis vamo embora pá cidade”, então Seu Jorge foi caminhando em direção às terras vizinhas, era uma longa caminhada pois a Imperial Predator S. A. possuía muitas terras, Sem dúvida esse caminho seria percorrido bem mais rapidamente se Seu Jorge estivesse com a carroça, só que eles já haviam matado os bois a bastante tempo para poderem se alimentar.
Quando voltou para casa com um cheque nas mãos, as trouxas de roupa já estavam prontas, e juntos todos eles foram caminhando até a cidade, e de lá pegaram um ônibus até uma cidade bem grande, pois Seu Jorge achava que numa cidade grande eles teriam mais chances de arranjar emprego, Dentro do ônibus a mãe pediu para ver o cheque, e quando viu olhou para o Seu Jorge e perguntou com enorme tristeza “Só isso?”, e Seu Jorge respondeu com uma tristeza do mesmo tamanho “Era isso ou morrer de fome”, e João assistia a tudo isso com os lábios em silêncio, mas com a mente gritando, e quando ele olhava através da janela do ônibus a pequena cidade se distanciando atrás deles, e a longa estrada se abrindo em frente ele sentia dentro de si aquela esperança, que não importa o que aconteça nunca morre, porque ele tinha muita fé, ele realmente achava que uma hora ou outra as coisas iriam melhorar.
Quando chegaram à cidade não acharam nenhuma casa a venda, tiveram que ficar numa pequena pensão, imunda e fedorenta, com as paredes pintadas de cinza. E no dia seguinte estavam todos nas ruas procurando emprego, mas ninguém queria empregar eles, porque eles eram analfabetos, e vieram da roça, e todos os serviços que precisavam só de força, já estavam sendo muito bem feitos por máquinas. E assim os dias foram se passando e o dinheiro foi sumindo muito rápido, pois eles tinham que pagar a pensão, que apesar de ser ruim era a única que estava disponível para eles, a comida que era de uma lanchonete da mesma rua, e a energia, a água, e as outras despesas relacionadas a higiene pessoal, roupas e transporte, afinal, não era barato ter que ficar correndo de um lado para o outro na busca desesperada por emprego, mas mesmo assim eles tinham muita fé, eles realmente achavam que uma hora ou outra as coisas iriam melhorar.
E após um longo e difícil ano de muitas lutas e fracassos, o dinheiro já havia chegado ao fim, e como sempre, Seu Jorge foi o último a chegar no quarto da pensão, e estava bêbado, então ele caminhou lentamente até o quarto e deu um beijo no rosto da mãe Tereza, que estava dormindo, e deu também outro beijo na testa do João, que estava dormindo no sofá, e em silêncio saiu do quarto.
No outro dia João e mãe Tereza acharam estranha a ausência do pai, mas acharam que ele havia saído mais cedo para procurar emprego, e essa ausência foi se prolongando e quando ele já estava sumido por três dias João teve que abandonar a procura de emprego para procurar o pai. E após uma longa procura, acharam o corpo do Seu Jorge num necrotério. Ele havia sido encontrado num beco escuro da cidade com uma faca cravada no peito, mas ninguém sabia dizer quem havia cravado a faca naquele peito, e os médios legistas não descartavam a ideia de que a faca tivesse sido cravada pelo próprio Seu Jorge. E após esse acontecimento, João e Tereza tiveram que se endividar para dar um enterro decente ao pai.
A mãe caiu numa tristeza profunda, não saiu mais para procurar emprego, e se recusava a comer qualquer coisa. Até que certo dia, ela dormiu e não acordou mais, João teve que se endividar mais ainda para dar um enterro decente para sua mãe, e decidiu sair da pensão, pois não podia mais pagá-la e nem queria mais viver debaixo daquele teto, que trouxe tanta desgraça à sua vida.
E após esse dia, ele passou a viver de esmola nas ruas, tentando se desfazer das lembranças que ele não conseguia esquecer. E por mais que ele não soubesse mais o que fazer, ele queria ter algo para fazer, e por mais que ele quisesse morrer, continuava vivo, e por mais que não soubesse aonde ir, ele caminhava, e por mais que as coisas estivessem ruins, ele tinha muita fé, ele realmente achava que um dia as coisas iriam melhorar.
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