Logo para que nós possamos entender a sociedade de hoje, devemos olhar para trás e entender como se formaram os herois do passado, e qual heroi nós temos hoje, só assim poderemos compreender a atualidade. Portanto os herois escolhidos para fazerem parte dessa análise foram: Aquiles, Ulisses, Robin Hood, Superman e por fim, o grande inspirador deste texto, Capitão Nascimento.
Aquiles, heroi criado pelo poeta grego Homero ilustrava muito bem o pensamento daquele tempo, era um herói que apesar da força descomunal e na incrível habilidade em campo de batalha era um guerreiro que estava à mercê da vontade dos deuses. Pois antes de ir para a guerra de Tróia ele havia sido avisado que se ele fosse a profecia de que morreria jovem, porém seu nome seria eternamente gravado na história, iria se cumprir (fato este que ocorreu mais tarde), e esta ideia de que por mais forte que um homem possa ser, ele nunca poderá ser mais forte que a vontade dos deuses se encarna no fato de seu ponto fraco ser o calcanhar. Ou seja, a mensagem trazida por Aquiles era “Você pode ser forte, você pode até desafiar os reis. Mas você não pode de maneira alguma superar a vontade dos deuses”, e Aquiles simbolizava uma nação que tinha potencial para se desenvolver culturalmente, economicamente e politicamente, mas que ainda se via delimitada pelos mitos e por uma religião alienadora.
Ulisses, também criado por Homero, retrata um heroi um pouco mais desenvolvido, Pois este utilizava a inteligência do homem para superar os obstáculos, e só assim ele conseguiu superar a vontade dos deuses. Ao vencer a guerra de Tróia Ulisses grita para o mar, vangloriando-se de seus incríveis feitos e afirmando ser mais poderoso que os deuses e totalmente independente destes. Poseidon enfurece-se ao ouvir isso, e o amaldiçoa com o castigo de nunca mais poder retornar para o seu lar. Mas Ulisses não desiste e utiliza toda a sua astúcia para voltar para casa, e no caminho de volta ele inclusive é auxiliado pelo deus dos ventos, que afirma que está a ajudá-lo pelo fato dele ser o primeiro homem a usar a racionalidade para superar seus obstáculos. No fim da narrativa Ulisses consegue retornar para casa, contrariando assim as palavras do poderoso deus Poseidon simbolizando assim uma sociedade grega mais renomada, que já consegue se desprender das limitações impostas pelos mitos, e tudo isso através da racionalidade, da Filosofia e da Ciência.
Na Idade Média encontramos outro bom exemplo de herói, o jovem Robin Hood (conhecido como rei dos ladrões), que simbolizava um heroi rebelde, que roubava dos ricos para dar aos pobres. Sabe-se que Robin Hood surgiu apenas no final da Idade Média, e assim podemos identificar que a ideia de um herói plebeu e ladrão, porém justiceiro, simbolizava toda a fúria de uma sociedade feudal, que já estava ciente de que era oprimida e manipulada pelas classes “superiores”, e assim expressava no seu heroi ladrão toda sua sede por justiça.
O Superman é um heroi que num geral pode simbolizar o próprio Estados Unidos, pois se veste usando as cores da bandeira norte-americana, este surgiu no cenário de um Estados Unidos que havia acabado de se recuperar de uma crise mundial e que se encontrava a “todo vapor”, pronto para encarar uma Segunda Guerra Mundial e ainda por cima sair ganhando. Superman simboliza uma nação que se encontra em plena ascensão econômica e que se vangloria com a ideia de que é superpoderosa e que pode superar qualquer obstáculo. Podemos dizer que este tipo de heroi é perigoso para uma nação, pois uma nação que se ilude achando que está tudo bem, não tem capacidade de se autocriticar e conhecer seus próprios problemas, e ainda pode esconder em sua essência o germe de uma futura nação xenófoba.
Por fim, vamos nos voltar para a nossa própria realidade. A nação brasileira nunca antes havia criado um heroi para si com tanta popularidade, a ideia que alguns críticos tem de que o nosso primeiro heroi seria Macunaíma é furada, pois Macunaíma não representa nenhum ideal de homem, portanto não pode ser visto com heroi, Macunaíma simplesmente representa um povo consciente de sua condição multiculturalmente miscigenada. Capitão Nascimento é retratado em bonecos, e o “caveirão” até já virou carrinho, e o que é incrível, os dois simplesmente sumirão das prateleiras ao lá serem depositados. As nossas crianças brincam de ser Capitão Nascimento, e se batem no rosto exclamando “Pede pra sair!”.
Capitão Nascimento é um homem durão, sem meias-palavras, que se priva de sua vida particular para lutar contra o crime, ele não se importa em usar agressão física ou moral, tortura ou assassinatos para defender a sua sociedade, e o que me preocupa é fato dele ser aplaudido ao fazer essas barbaridades. Vemos logo que se trata de uma situação delicada, que deve ser examinada por olhares críticos. Capitão Nascimento simboliza uma nação inteira que tem ciência de sua condição de opressão, e a partir disso sente raiva dos políticos corruptos, dos traficantes e das milícias e ao mesmo tempo simboliza uma sociedade fraca e oprimida, que não consegue combater a violência e a corrupção com suas próprias mãos então acaba entregando nas mãos da polícia todas as suas esperanças (pode se dizer que a nação tem raiva das injustiças, mas preguiça ou pouca força para combatê-las, daí acaba implorando ajuda para a segurança), Capitão Nascimento ao tentar fazer justiça com as próprias mostra uma nação que não tem capacidade racional para argumentar a favor de seus direitos, ou pior, mostra uma nação que não recebeu educação para argumentar com os seus problemas e combatê-los de maneira racional e inteligente, revelando assim uma sociedade carente de educação.
Em suma percebe-se que o Brasil ao ter como heroi o Capitão Nascimento, se revela como uma nação totalmente enfurecida, oprimida, fraca e sem educação, uma nação que já não vê mais saída.
Espero que meu texto tenha aberto os olhos daqueles que o leram para esta situação. E antes de finalizar, gostaria de deixar uma pequena interrogação no ar “Por que esse nome Nascimento? Não seria mais apropriado ’Morte’? Ou isso é uma ironia?”.


Olá Bruno,
ResponderExcluirBelíssimo texto, parábens. Escreve-se com maestria, sua verve é sublime, suave... gostei muito do blog.
Saudações cordiais,
Prof. Lima Júnior