É, então vão com Deus! Agora eu estou sozinho! (Second Test Edition)
Tradução de Bruno Orsatto Lanferdini
Do monólogo “Ay, so God buy to you! Now I am alone”
Presente na segunda cena do segundo ato
Da peça “Hamlet” de William Shakespeare
Do verso 541 ao 600
541 É, então vão com Deus! Agora eu estou sozinho!
O, que escravo ruim e relaxado eu sou!
Não é monstruoso que esse ator aqui,
Numa ficção, num sonho de paixão,
545 Consiga forçar a sua alma sob a sua imaginação,
Que com o seu trabalho toda a sua aparência empalidece,
Lágrimas nos olhos, aspecto perturbado,
A voz trêmula, e todo o seu corpo funcionando em sintonia
Pra dar forma à sua imaginação? E tudo isso por nada!
550 Por Hécuba!
O que é Hécuba pra ele ou ele pra Hécuba
Pra que ele tenha que chorar por ela? O que ele faria
Se tivesse o motivo e o sinal pela paixão
Que eu tenho? Ele afundaria o palco com lágrimas,
555 E rasgaria o ouvido do público com palavras horríveis,
Deixaria o culpado louco, o inocente assustado,
O ignorante confuso, e de fato perturbaria
As próprias faculdades dos olhos e dos ouvidos.
Enquanto eu,
560 Um pivete frouxo de boca-mole, molengão,
Tipo um joãozinho-sonhador, indiferente à minha causa,
Não posso dizer nada. Não, nem por um rei
Que a propriedade e a vida querida
Viraram uma derrota maldita. Eu sou um covarde?
565 Quem me chama de vilão, quebra a minha cabeça,
Arranca a minha barba e assopra ela na minha cara,
Me puxa pelo nariz, enfia as mentiras que eu disse
Até o fundo dos pulmões? Quem me faz isso?
Ha!
570 Quer saber!? Eu mereço, não tem jeito
Eu tenho esse fígado de pombo, me falta o fel
Que deixa o insulto amargo, se não
Eu já teria alimentado todos os abutres da região
Com os miolos desse escravo. Maldito, abominável vilão!
575 Impiedoso, traiçoeiro, devasso, cruel vilão!
O, vingança!
Porque, que burro que eu sou! Isso é bravíssimo,
Que eu, o filho de um querido pai assassinado,
Convocado à minha vingança pelo céu e o inferno,
580 Deva, que nem uma prostituta, tirar do meu coração só palavras,
E ficar rogando praga tipo uma puta,
Uma criadinha! Que nojo disso! Af!
Trabalha, meu cerebro. Hum – eu ouvi falar
Que criatura culpadas, assistindo uma peça,
585 Foram, pela engenhosidade da cena,
Atingidos até a alma, e que na hora
Confessaram os seus crimes.
O assassinato, apesar de não ter língua, vai falar
Por algum órgão milagroso. Eu vou fazer esses atores
590 Encenarem alguma coisa como o assassinato do meu pai
Diante do meu tio. Eu vou observar os seus olhares.
Eu vou entrar nele até o osso. Se ele tremer.
Eu sei o que fazer. O espírito que eu vi
Pode ser um demônio, e o demônio tem o poder
595 De assumir uma forma sedutora, é, e talvez
Através da minha fraqueza e da minha melancolia,
Já que ele tem bastante poder sobre espíritos assim,
Me use pra me arruinar. Eu vou ter chão
Mais firme que isso. A peça é a coisa
600 Na qual eu vou pegar a consciência do Rei.
Bruno Orsatto Lanferdini
Curitiba
14 de novembro de 2017
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