quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O, se essa carne tão tão suja derretesse (First Test Edition)

O, se essa carne tão tão suja derretesse (First Test Edition) 

Tradução de Bruno Orsatto Lanferdini  
Do monólogo “O, that this too too solid flesh would melt 
Presente na segunda cena do primeiro ato 
Da peça “Hamlet” de William Shakespeare 
Do verso 129 ao 159 


129 O, se essa carne tão tão suja derretesse 
130 Evaporasse e se transformasse em névoa! 
       Ou se o Todo-Poderoso não tivesse feito 
       Um mandamento contra quem se mata! O Deus! Deus! 
       Quão gastos, podres, chatos e inúteis 
       Me parecem todos os usos desse mundo 
135 Nojo disso! A, nojo! Isso é um jardim arrasado 
       Infestado pelo mato, totalmente possesso pelas coisas podres 
       E nojentas da natureza. Tinha que ter chegado a isso! 
       Mas morto a dois meses! Não, nem tanto, nem dois. 
       Um rei tão excelente que está para esse 
140 Como Hipérion está para um sátiro. Tão amoroso com a minha mãe, 
       Que ele não permitia que nem os ventos do céu 
       Tocassem o rosto dela com força. Céu e terra! 
       Eu tenho que lembrar? Que, ela se agarrava nele 
       Como se o apetite dela fosse crescendo e crescendo 
145 Conforme ela fosse comendo. E ainda assim, dentro de um mês 
       Não me deixe pensar nisso. Fragilidade, teu nome é mulher! 
       Um mezinho! Antes mesmo que ficassem velhos os sapatos 
       Que ela usou pra seguir o corpo do pobre do meu pai 
       Como Niobe, toda lágrimas – Por que ela, justo ela –  
150 O Deus! Um animal sem discurso e razão 
       Teria lamentado mais tempo – Casada com o meu tio,  
       Irmão do meu pai, mas não tão parecido com o meu pai 
       Quanto eu com Hércules. Dentro de um mês 
       Antes mesmo do sal das lágrimas mais hipócritas 
155 Terem deixado os seus olhos ásperos, 
       Ela casou. O, que velocidade safada, pular 
       Com tanta pressa pros lençóis incestuosos! 
       Isso não tá e nem pode terminar bem. 
159 Que quebre, meu coração, mas eu tenho que segurar minha língua. 


Bruno Orsatto Lanferdini 
Curitiba 
15 de setembro de 2017

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